quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

MORRE LENTAMENTE QUEM NÃO VIAJA


Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da
Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!

Pablo Neruda

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CARTA DE DESPEDIDA


Para quê dizer adeus se quero ficar?
Para quê sorrir se quero chorar?
Para quê esquecer-te se te quero amar?
Para quê olhar-te se te quero beijar?
Não consigo ficar, digo-te adeus.
Não consigo chorar, prefiro sorrir.
Não paro de te amar, jamais te esquecerei.
Não quero mais beijar, deixa-me te olhar.
O nosso amor jamais se acabará.
Pois também jamais te esquecerei.
Se um dia alguém te disse que te esquecerei.
Nesse dia podes chorar, pois no céu estarei.
Fernando de Sousa Pereira in O Enigma d’ O Livro do Desassossego

CARTA DE DESPEDIDA DE KURT COBAIN


Testamento traduzido:
Para Boddah
Falando como um simplório experiente que obviamente preferiria ser um efeminado, infantil e chorão. Este bilhete deve ser fácil de entender. Todas as advertências dadas nas aulas de punk rock ao longo dos anos, desde minha primeira introdução a, digamos assim, ética envolvendo independência e o abraçar de sua comunidade, provaram ser verdadeiras. Há muitos anos eu não venho sentindo excitação ao ouvir ou fazer música, bem como ao ler ou escrever. Minha culpa por isso é indescritível em palavras. Por exemplo, quando estou atrás do palco, as luzes se apagam e o ruído ensandecido da multidão começa, nada me afeta do jeito que afetava Freddie Mercury, que costumava amar, se deliciar com o amor e adoração da multidão - o que é uma coisa que totalmente admiro e invejo. O facto é que não consigo enganar vocês, nenhum de vocês. Simplesmente não é justo para vocês e para mim. O pior crime que posso imaginar seria enganar as pessoas sendo falso e fingindo que estou me divertindo 100 por cento. Às vezes acho que eu deveria acionar um despertador antes de entrar no palco. Tentei tudo que está em meus poderes para gostar disso (e eu gosto, Deus, acreditem-me, eu gosto, mas não o suficiente). Me agrada o fato de que eu e nós atingimos e divertimos uma porção de gente. Devo ser um daqueles narcisitas que só dão valor as coisas quando elas se vão. Eu sou sensível demais. Preciso ficar um pouco dormente para ter de volta o entusiasmo que tinha quando criança. Em nossas últimas três tournées, tive um reconhecimento por parte de todas as pessoas que conheci pessoalmente e dos fãs de nossa música, mas eu ainda não consigo superar a frustração, a culpa e a empatia que tenho por todos. Existe o bom em todos nós e acho que eu simplesmente amo as pessoas demais, tanto que chego a mim sentir mal. O triste, sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus. Por que você simplesmente não aproveita? Eu não sei! Tenho uma esposa que é uma deusa, que transipira ambição e empatia e uma filha que me lembra demais de como eu costumava ser, cheio de amor e alegria, beijando todo mundo que encontra porque todo mundo é bom e não vai fazer mal a ela. Isto me aterroriza a ponto de eu mal conseguir funcionar. Mal posso suportar a ideia de Frances se tornando o triste, autodestrutivo e mórbido roqueiro que virei. Eu tive muito, muito mesmo, e sou grato por isso, mas desde os sete anos de idade passei a ter ódio de todos os humanos em geral. Apenas porque parece muito fácil se relacionar e ter empatia. Apenas porque eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho. Obrigado do fundo de meu nauseado estômago queimando por suas cartas e sua preocupação ao longo dos anos. Eu sou mesmo um bebé errático e triste! Não tenho mais a paixão, então lembrem, é melhor queimar do que se apagar aos poucos. Paz, Amor, Empatia.
Kurt Cobain

CARTA DE DESPEDIDA


Vou...
Parto nas desavenças,
em silêncio,
divagando na despedida,
sigo minha caminhada sufocando as lágrimas
que derramam tua ausência...
No entanto,
mais do que nunca,
entrego a vida às mãos do tempo
e continuo onde me deixaste....
Sabes,
não escolhi esta retirada
mesmo assim, vou aos desencontros e,
ainda que não me entendas,
aos lamentos,
é a única opção...
Em preces e renúncias seguirei,
não mais em desventuras,
apenas guardando nossos beijos e abraços
nos laços da saudade à espera do reencontro...
Acredite,
não fomos mera aventura,
muito mais, somos sentimento e ternura,
e mesmo que separados,
existe o sonho, ou quem sabe,
a eternidade deste amor,
a nos esperar...
Vera lucia Scatulin

VERDADE PROFÉTICA


Toda a gente fala da desgraça, toda a gente já a sentiu e julga conhecer-lhe o carácter múltiplo.
No entanto, quase todos nos enganamos. A desgraça real não é, absolutamente, o que pensamos, isto é, o que os desgraçados a supõem.
Para nós a desgraça está na miséria, no fogão sem lume, no credor que ameaça, no berço do qual o anjo sorridente desapareceu, nas lágrimas, no funeral que se acompanha de cabeça descoberta e com o coração despedaçado, na angústia da traição, no despir do orgulho que se desejara envolver-se em púrpura e mal oculta a nudez sob os andaimes da vaidade.
A tudo isto e a muitas coisas se dá o nome de desgraça, na linguagem humana.
Sim, é desgraça para os que só vêem o presente. A verdadeira desgraça, porém, está na consequência de um facto, mais do que no próprio facto.
Pensemos, se um acontecimento, considerado ditoso na ocasião, mas que acarreta consequências funestas, não é, realmente, mais desgraçado do que outro que, a princípio, causa viva contrariedade e acaba produzindo o bem.
Vejamos se a tempestade que arranca as árvores, mas que saneia o ar, dissipando os meandros focados que causariam a morte, não é antes uma felicidade do que uma infelicidade.
Para julgarmos qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências. Assim, para bem apreciarmos o que, na realidade, é bom ou mau para o ser humano, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir.
Ora, tudo o que se chama infelicidade, segundo as acanhadas vistas humanas, cessa com a vida corporal e encontra a sua compensação na vida futura.
Podemos pensar na infelicidade sob uma nova forma, sob a forma bela e florida que acolhemos e desejamos com as nossas almas iludidas.
A infelicidade pode estar na alegria, no prazer, no tumulto, na vã agitação, na satisfação louca da vaidade, que fazem calar a consciência, que comprimem a acção do pensamento, que atordoam o ser humano com relação ao seu futuro.
A infelicidade é o ópio do esquecimento que ardentemente procuramos conseguir.
Superando com coragem os obstáculos do caminho, estaremos agindo como bravos soldados, que longe de fugirem ao perigo, preferem as lutas dos combates arriscados à paz que não lhes pode dar glória, nem promoção.
Que importa ao soldado perder, na refrega, armas, bagagens e uniforme, desde que saia vencedor e com glória?

VIOLÊNCIA


A onda crescente de delinquência que se espalha por todo o mundo assume proporções catastróficas, imprevisíveis, exigindo de todos os seres humanos honestos e lúcidos muitas reflexões.
Irrompendo, intempestivamente, faz-se avassaladora, em vigoroso testemunho da barbárie, qual se a loucura se abatesse sobre as mentes, em particular junto à inexperiente juventude, em proporções inimagináveis e aflitivas.
Sociólogos, educadores, psicólogos e religiosos, preocupados com a expressiva quantidade de delinquentes de toda a espécie, especialmente os perversos e violentos, aprofundam pesquisas, improvisam soluções, experimentam métodos mal elaborados.
Precipitadamente oferecem sugestões que triunfam por um dia e sucumbem no dia imediato, tudo prosseguindo como antes, senão mais turbulento, mais inquietador.
Enquanto a delinquência estava quase que só entre os jovens das classes sociais menos favorecidas, era atribuída à falta de recursos financeiros e de educação.
Mas hoje, a comunicação social tem divulgado inúmeros casos de perversidade e violência praticados por jovens que pertencem a famílias abastadas, o que afasta a hipótese de falta de dinheiro ou de instrução.
Tudo isto nos leva a crer que a linhagem social e a tradição não são obstáculos à manifestação da delinquência, uma vez que dentro dessas famílias os exemplos nem sempre são salutares.
Percebe-se, a existência no seio das famílias ditas tradicionais, da inversão de valores, da corrupção dos costumes, do desprezo às leis, da imposição dos caprichos pessoais em detrimento da justiça, e assim por diante.
Ainda na mesma linha de raciocínio, percebe-se que pais transferem a educação a terceiros, porque não têm tempo para se dedicarem à família, uma vez que precisam dedicar as horas aos compromissos sociais.
Não se dão conta, esses pais, que pela vivência estabelecem directrizes de comportamento aos filhos, de cujas acções não se podem queixar mais tarde.
Por conseguinte, devemos considerar que a leviandade de professores e educadores imaturos, não habilitados moralmente para os relevantes sistemas de preparação das mentes e caracteres em formação, contribui, igualmente, com uma larga quota de responsabilidade no capítulo da delinquência juvenil, da agressividade e da violência vigentes.
Devemos considerar ainda, que se quisermos eliminar o problema da perversidade e da violência da nossa sociedade, será preciso mais que medidas punitivas.
Será preciso reformular conceitos, repensar valores, reformar a intimidade, e adoptar a doutrina cristã como directriz segura, para os nossos passos.
Ensinar à criança e ao jovem a valorização e o respeito pela vida, através do próprio exemplo.
E, por fim, apresentar Jesus aos nossos filhos. Apresentá-Lo como Modelo e Guia da Humanidade, como Psicoterapeuta ideal que nos conduzirá a Deus, porque conhece o caminho.

DESABAFO PROFÉTICO


A maioria dos seres humanos não vive em paz.
Estar em paz não significa apenas não fazer parte de uma guerra.
Muitas vezes não há atritos visíveis com os semelhantes, mas a criatura permanece sem sossego. A paz interior consiste numa harmonia preciosa e constante.
Quem desfruta desse tesouro convive bem consigo mesmo.
Por mais que enfrente dificuldades na vida, o seu íntimo permanece tranquilo.
O ser humano pacificado não necessita inventar distracções, porque a percepção do seu mundo interior não o angustia.
A agitação da sociedade moderna evidencia quão poucos realmente desfrutam de paz.
As inovações tecnológicas gradualmente libertam o ser humano de tarefas repetitivas e cheias de tédio.
Cada vez mais o ser humano dispõe de mais tempo livre, mas não utiliza as suas folgas para conhecer e cultivar o próprio carácter.
Na ânsia de conquistar coisas, multiplica desnecessariamente as horas de trabalho, e nos raros momentos em que fica livre, procura distracções ruidosas e absorventes, como se o encontro com a própria alma fosse algo a ser evitado.
Sejam ricos ou pobres, bonitos ou feios, cultos ou iletrados, os seres humanos procuram fugir de si próprios, e memo quem reúne condições consideradas ideais para a felicidade raramente desfruta dessa situação.
Os seres humanos enfrentam cada vez mais torturas íntimas, ansiedades e complexos aparentemente injustificados.
Por mais que a vida siga tranquila, a ausência de paz permanece.
A questão é que a verdadeira paz pressupõe a consciência tranquila, e a tranquilidade da consciência só tem quem for puro de sentimentos, palavras e acções, e for uma pessoa honrada e honesta, porque quem vive o mal mantém no seu íntimo a marca da desarmonia.
Os erros fazem parte do processo de aprender, mas apagá-los mediante o amor bem vivido propicia paz e harmonia.
Inteligência, sensibilidade, aptidão para falar ou escrever, deves empregar tudo isto na construção de um mundo melhor, e uma sublime paz habitará o teu coração.

MOMENTO


Antes de te negares aos apelos da caridade, medita um momento nas aflições dos outros, imaginando-te no lugar de quem sofre.
Observa os irmãos relegados aos padecimentos da rua e coloca-te constrangida a semelhante situação.
Repara no doente desamparado e considera que amanhã, provavelmente seremos nós, candidatos ao socorro na via pública.
Contempla as crianças necessitadas, lembrando-te de que já foste criança.
Quando a ambulância desliza devagar na sua marcha lenta, levando um doente anónimo, considera que talvez um parente nosso extremamente querido se encontra a gemer dentro dela.
Escuta pacientemente as pessoas que consideras amigas entregues à sombra do grande infortúnio e recorda que num futuro próximo, é possível que estejas na travessia das mesmas dificuldades.
Olha a multidão dos ignorantes e dos fracos cansados e infelizes, julgando-te entre eles, e mentaliza a gratidão que tu sentirias perante a migalha de amor que alguém te desse.
Pensa um momento em tudo isto, se quiseres, se tiveres coração!!! E tu reconhecerás que a caridade para todos nós é simples obrigação.
Quantos de nós, desatentos, deixamos passar muitas oportunidades de acender luzes na nossa consciência, no convívio diário com aqueles a quem dizemos amar.
As palavras bonita e belas, as frases bem elaboradas fazem parte do nosso vocabulário, sim, mas não para os de casa.
Raramente nos dirigimos ao namorado, companheiro, filhos ou demais familiares, com o mesmo respeito com que nos dirigimos aos amigos (alguns), clientes ou colegas de trabalho.
Mas os anos passam, e um dia, também nós estaremos diante do caixão de um ser querido que se despede da existência física.
Também na nossa memória desfilarão as palavras mais proferidas no convívio diário, especialmente “ai se eu soubesse”, “era tão amiga”…
Também na nossa mente se desenharão os gestos mais comuns do quotidiano, e o nosso coração sentirá alegria ou tristeza em conformidade com as nossas acções mais constantes.
Assim, comecemos hoje mesmo a tratar o nossos entes queridos de forma gentil e carinhosa para que as nossas palavras não nos tragam amargura e remorso amanhã.
Todas as palavras amargas que tu deixas de dizer são tuas escravas, obedecendo-te a vontade, mas aquelas que tu disseres fazem de ti um escravo, pois não as conseguirás apagar da consciência, nem evitar os dissabores que irão causar, e por esta razão, vale a pena falar somente o que nós também gostaríamos de ouvir com alegria, porque agindo assim, jamais nos arrependeremos.

FRASE DO DIA


O AMOR COBRE A MULTIDÃO DOS PECADOS...